A Universidade Federal de Santa Maria, através da Pró-Reitoria de Extensão e da Coordenadoria de Cultura e Arte (CCA) possibilitou propostas para criação e execução de murais artísticos nas paredes da instituição, dentre estes, nasce o mural do Espaço Multiprofissional Casa Verônica.
Intitulado Mural Artístico Casa Verônica de Oliveira, o projeto foi proposto por Everton Rodrigues Santos, orientado pela professora Andreia Oliveira e executado por Everton e Douglas Dornelles Medeiros. O mural teve como intenção preservar a memória de Emilya Violet Friedrich, mulher trans, estudante do curso de Licenciatura em Artes Visuais nessa instituição, que faleceu em fevereiro de 2024.
A morte é uma forma de permanência no tempo. É uma ausência que se faz presente nos encontros cotidianos da vida. Cuidar de nossas mortes é cuidar da memória. E a memória precisa ser preservada e resgatada para que possamos avançar no tempo.
Everton nos contou que a ideia para o mural surgiu na escuta da música “Roda Gigante”, de Rodrigo Zin. Próximo ao final da música ele diz: “Liberdade é isso, se morrer não sumir, vou virar tinta pra você escrever sobre mim, sobre nós”.
Everton tece sua proposta com as palavras “comunidade e acolhimento”. Nos fazendo pensar o quanto dos nossos lutos podem ser coletivos e, se partilhados, podem ser uma forma de se recordar da vida.
Citando Everton:
“A vida é como uma roda gigante,
em um momento podemos estar no topo, em outros, para baixo, o importante é
entender que maus momentos são passageiros e que há pessoas que se
importam e estão dispostas a ajudar”
Nosso mural conta também com a Presença de Verônica Oliveira – Ativista LGBT+ de Santa Maria, que dá nome ao serviço “Casa Verônica”. A morte de Verônica foi o retrato de uma sociedade transfóbica e violenta com mulheres trans e travestis. Verônica proporcionou vida e cuidado para muitas pessoas, sendo inegável sua importância para a comunidade de Santa Maria.
Mesmo que a transfobia seja crime no Brasil desde 2019, o país é ainda o que mais mata pessoas trans e travestis em todo o mundo. Estando há mais de 10 anos nessa posição. Pessoas trans e travestis resistem, criam, estudam, trabalham, brincam e amam. Na intenção de registrar a importância destas vidas, nosso mural conta com mulheres que, com suas histórias e trajetórias, nos ajudam a historicizar e contar um novo tempo possível.
O mural que homenageia Emylia e Verônica, homenageia também pessoas próximas a nós, como Zara Bastos – Estudante de Ciências sociais UFSM e bolsista da casa verônica, Cilene Rossi – ativista LGBT+ de Santa Maria e Ali Machado, egressa da UFSM e atualmente Professora Adjunta do Instituto de Ciências Humanas e da Informação da Universidade Federal do Rio Grande (ICHI/FURG). Junto a elas, lado a lado, recebem honra Letícia Carolina Nascimento, autora, pedagoga e professora acadêmica brasileira, pesquisadora da área de Gênero e Educação, Laerte Coutinho, cartunista e chargista brasileira, considerada uma das artistas mais importantes da área no país e Erika Hilton, primeira Deputada Federal negra e trans eleita na história do Brasil.
Este mural é mais do que uma obra artística; é um manifesto de memória, resistência e esperança. Ele nos convoca a reconhecer as vidas que constroem nossa história e os desafios que ainda precisamos superar como sociedade. Que este espaço seja um ponto de encontro para reflexões, diálogos e ações que promovam igualdade, respeito e dignidade para todas as pessoas. Que ao olhar para estas cores e formas, possamos nos lembrar da força transformadora da coletividade e do cuidado com o outro. Este é um marco para celebrar vidas que nos inspiram a construir um mundo mais justo e acolhedor.
Conheça cada uma dessas mulheres:
Laerte Coutinho – Uma das maiores cartunistas brasileiras, conhecida por sua criatividade e obras marcadas por humor, crítica social e reflexões filosóficas. Criadora de personagens icônicos como “Hugo Baracchini” e “Overman”, Laerte também se tornou uma voz importante para a visibilidade trans no Brasil após assumir sua identidade de gênero nos anos 2010. Sua trajetória é celebrada pelo talento e pela coragem de romper barreiras artísticas e sociais
Ali Machado – Professora, jornalista e ativista transfeminista, reconhecida por sua atuação em direitos humanos e LGBTQIAPN+. Mestre e doutora em Comunicação, tendo realizado toda a sua formação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Pesquisa corporalidades, sexualidades e gêneros, com foco na circulação de artefatos culturais e midiáticos. Guiada por uma perspectiva hermenêutica e simbólica, integra teoria e práxis na reflexão sobre corpos, poder e pluralidade. Atualmente, é Professora Adjunta no ICHI/FURG, onde contribui para a construção de saberes críticos e emancipatórios.
Letícia Carolina Nascimento – Letícia Carolina Nascimento é professora, pesquisadora e ativista, com uma trajetória marcada pela luta antirracista e pelos direitos LGBTQIAPN+. Doutora em Educação pela UFPE, Letícia dedica-se a estudos sobre gênero, sexualidade e raça, com foco na interseccionalidade e nas práticas decoloniais. Reconhecida por seu trabalho teórico e político, é autora de livros e artigos que dialogam com saberes feministas negros e transfeministas. Além de acadêmica, é uma voz importante na defesa das pluralidades e da justiça social.
Zara Bastos – Estudante de Ciências sociais UFSM e bolsista de Organização de Eventos junto ao Espaço Multiprofissional Casa Verônica. Além de suas atividades acadêmicas, Zara atua como DJ, participando de eventos culturais e festas na região de Santa Maria, destacando-se na cena musical local.
Verônica Oliveira – Conhecida como “Mãe Loira”, foi uma destacada ativista pelos direitos LGBTQIAPN+ em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Ela fundou e manteve, por cerca de 13 anos, um alojamento que acolhia pessoas trans em situação de vulnerabilidade, oferecendo suporte e abrigo a quem enfrentava preconceito e exclusão. A Casa Verônica leva seu nome em homenagem ao seu legado.
Cilene Rossi – Ativista e figura de destaque na luta pelos direitos LGBTQIA+ em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Com uma trajetória marcada pela defesa da inclusão e da visibilidade trans, Cilene atua como assessora parlamentar, contribuindo para a representatividade de pessoas trans em espaços políticos e institucionais. Sua participação em projetos como a “Exposição Visitrans” da UFSM destaca seu compromisso em promover debates sobre gênero e diversidade. Cilene é uma referência local na promoção da igualdade e na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
Emilya Violet Friedrich – Acadêmica do curso de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), participava ativamente do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) desde seu primeiro ano no curso, Filosofia e Estética da Arte eram seus temas de estudo preferido. Emilya deixou um legado de inspiração e contribuição ao ensino de artes. Gostava de ouvir Heavy Metal, assistir animes como Neon Genesis Evangelion e ler Mangás como JoJo’s Bizarre Adventure, do qual ela se inspirava no uso das cores de Hirohiko Araki para seus trabalhos. Em 2023 produziu um trabalho de colagens intitulado “Renascimento”, em alusão ao seu início no processo de transição de gênero. Lembrada com carinho pela comunidade acadêmica, família e amigos, foi a inspiração primordial para o mural.
Erika Hilton – Política e ativista brasileira, reconhecida por sua incansável luta pelos direitos da população LGBTQIAPN+, especialmente a comunidade trans, e pela promoção de igualdade social e de gênero. Eleita em 2022 deputada federal pelo PSOL, Erika fez história como a primeira mulher trans a ocupar um cargo na Câmara Federal dos Deputados. Sua atuação se destaca na defesa de políticas públicas inclusivas, justiça social e combate às desigualdades estruturais. Com uma trajetória marcada pela resistência e coragem, Erika se consolidou como uma voz poderosa na política brasileira, inspirando e representando milhões de pessoas em busca de um Brasil mais justo e igualitário.