A terapia é um modo de tratar problemas de saúde psicológica, física ou social e pode ser vista em diferentes métodos. O Projeto Equoterapia da Escola de Equitação Universitária de Santa Maria (EQUSM) é um deles. Tocar o pelo de um animal, demonstrar carinho e senti-lo retribuir pode causar conforto e atingir diferentes níveis de emoção. Nesse sentido, a equoterapia conta com o auxílio de cavalos e éguas para atender crianças e adultos com necessidades especiais.
A Escola de Equitação Universitária de Santa Maria
O professor Mariano da Rocha, idealizador da Universidade Federal de Santa Maria, foi o responsável por fundar a Escola de Equitação, em 1960. Guiado pelo amor aos cavalos, Mariano da Rocha incentivou seus filhos a montar em cavalos e investiu na presença dos animais dentro da Universidade.
Quando fundada, a Escola de Equitação (EQUSM) fazia parte da UFSM. Contudo, em 2000 ela deixou de ser coordenada pela Universidade e passou a ser uma associação sem fins lucrativos. Ainda assim, alunos da UFSM não deixam de participar das atividades e estagiar na Escola.
Hoje, a EQUSM, localizada no Parque Tecnológico, no Campus Sede da UFSM, é composta por 18 cavalos de diversas raças. Crioula, Puro-Sangue Inglês, Brasileiro de Hipismo (BH) e Appaloosa são algumas das raças mantidas na Escola.

“Não é um simples passeio, é uma terapia”
Pedagogos, psicólogos, fisioterapeutas e equoterapeutas são os responsáveis por organizar as sessões, levando em consideração as necessidades específicas de cada pessoa. Além disso, estagiários da Universidade, dos cursos de Medicina Veterinária, Terapia Ocupacional, Zootecnia, Educação Física e Fisioterapia também ajudam no cuidado dos pacientes e dos cavalos. Atualmente, são quatro estagiários.
Fada, Bombom e Eclipse são os ajudantes do projeto e ferramentas no tratamento da depressão, sequelas de AVC, distúrbios de aprendizagem e linguagem, deficiências físicas e traumas.
Segundo a diretora do projeto, Clara de Barros, os cavalos e éguas podem ajudar a trabalhar autoconfiança, equilíbrio físico e emocional, autoestima e a tomada de decisões. “Não é um simples passeio, é uma terapia. Essa terapia tem um fundo científico”, afirma.
O movimento tridimensional e os passos ritmados e simétricos do cavalo podem trazer benefícios. “A anatomia do cavalo simula o nosso andar. Ela tem um movimento em ‘x’ e ao mesmo tempo o nosso corpo vai para cima e para baixo. Isso leva estímulos via medula que impulsionam o cerebelo e chegam a lugares do cérebro que às vezes fisioterapia ou medicamentos não alcançam”, afirma Clara. Por isso, desempenha papel no equilíbrio, coordenação e postura.
Segundo Clara, ainda não é possível saber se o contato com a natureza, o uso de atividades lúdicas ou somente o movimento do cavalo trazem resultados tão satisfatórios. Mas, acredita-se que seja o conjunto de tudo, junto do atendimento das profissionais.
“É uma forma de trabalhar sem a criança perceber que é uma terapia”
Por mais que atenda todos os públicos, a maioria dos participantes do projeto são crianças. Quando o paciente é novo na terapia, a psicóloga o acompanha em cima do cavalo. Com o passar das sessões e a evolução da criança, é possível que ela fique sozinha em cima do equino, sempre com as profissionais ao lado e conduzindo o animal. Quando chegam no lugar de costume, em uma sombra perto das árvores, o cavalo para e atividades lúdicas começam.
As dinâmicas podem trabalhar os sons. Vendando os olhos das crianças, suas audições se sobressaem. É nesse momento que escuta-se cada alteração do ambiente: batidas de portas, pássaros cantando, aviões passando.
Além disso, as crianças podem pintar, cantar, montar quebra-cabeças, bordar e jogar bola em cima dos cavalos. “É uma forma de trabalhar ludicamente sem a criança perceber que é uma terapia. É divertido e traz um rendimento muito grande”, conta Clara. Com o passar do tempo, as crianças podem conduzir os cavalos, o que, segundo a coordenadora, traz brilho no olhar das crianças.

EQUSM conta com 18 cavalos, sendo três para a equoterapia
Dentre os 18 cavalos do EQUSM, três são para a equoterapia. Os animais para as sessões terapêuticas precisam ser mansos, obedientes, calmos e, preferencialmente, baixos, para facilitar que as profissionais alcancem a criança. Mas isso não significa que, só por ter essas características, eles estão prontos para assistir uma criança. Antes de auxiliarem em uma terapia, os equinos passam por uma dessensibilização, um treinamento especial.
Cavalos são animais atentos e com a audição apurada, mas que podem se assustar facilmente. Por isso, são jogadas bolas perto do cavalo, bambolês, bichinhos de pelúcia, que a criança pode deixar cair ou jogar, e sacolas de plástico. Todo o cuidado evita que o animal se assuste quando, durante as terapias, jogam bolas para as crianças pegarem ou quando sacolas voam em suas patas.
Segundo Clara, a associação se certifica de que o cavalo está preparado, visando evitar possíveis sustos ou traumas nas crianças. “O cavalo é um ser vivo, ele pode ter reações, mas terá menos porque está dessensibilizado”, diz.
Cuidado e carinho para o bem-estar dos animais
O respeito com os animais é reforçado pela EQUSM. Uma das preocupações da associação é não estressar e desgastar os animais, além de manter a saúde deles em dia. Assim que o dia amanhece os animais saem de suas baias e são soltos nos piquetes, onde têm relação com outros cavalos e éguas.
Além da ração, do feno e da alfafa, os animais podem se alimentar das pastagens dentro dos piquetes. Clara de Barros afirma que todos os animais seguem uma dieta indicada pela médica veterinária da associação, o que ajuda a evitar cólicas equinas. Além disso, o Núcleo de Bem-Estar Animal da EQUSM trabalha no controle da saúde com vacinas e desvermifugação.
Ubirajara Marques, conhecido como “seu Bira”, trabalha na associação há dois anos e é responsável pela alimentação, troca de cama e limpeza da cocheira dos cavalos. “A gente pega apreço pelos bichinhos. Cada um que sai daqui faz falta, a gente se acostuma com os animais”, conta seu Bira. A relação de cuidado e carinho é fundamental para o bem-estar dos animais.
Como participar
Para realizar as sessões de equoterapia, que ocorrem de segunda a sexta-feira, é necessário ter indicação médica e atestado de aptidão física. São oferecidas cerca de 30 vagas para sessões particulares. Além disso, é possível conseguir os atendimentos gratuitos, para crianças que fazem parte de algum projeto do governo, como o Bolsa Família, ou que sejam pacientes do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Para buscar a gratuidade é necessário inscrever o paciente no edital que é publicado semestralmente. Atualmente existem oito vagas para atendimento gratuito, que já foram preenchidas neste semestre.
Mais informações no perfil @equsm3 no Instagram.
Texto e fotos: Jessica Mocellin, acadêmica de Jornalismo e bolsista da Agência de Notícias
Edição: Ricardo Bonfanti, jornalista